Clube do Medo | Sangue Fresco (Parte 1)

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GLENT HILL – 1980

Glent Hill era conhecida por sua população, a cidade era pequena, e a população em media de 380 habitantes. Construída ao sul da Alemanha, praticamente esquecida por Deus. Em 1980, a pacata cidade não era asfaltada – creio que nem existia esse termo na época. O local aonde Tom morava era um sítio, longe de tudo, perto de milharais, uma tremenda roça. Havia pântanos, e florestas escuras, a mãe de Collin sempre dizia aos filhos “Não vá aonde o sol não bate”, as vezes soava com uma lição de moral, mas Judite sabia que não. Tom Collin tinha uma irmã, Cameron, os dois sempre foram muito próximos, um ajudava o outro, um amor lindo entre ambos.

-Pegue a cola.

-Essa?

-Sim, agora passe-a no graveto.

-Passei.

-Ótimo, agora e só colar no papel de seda. E esperar secar.

-E depois…?

-Brincar!

Aquele era Tom Collin ensinando a irmã Cameron a montar uma pipa. Estava anoitecendo, o crepúsculo já ameaçara se pôr. Os lobos começavam a uivar sobre as montanhas alogadas.

-Tony, acho que já secou – Disse Cameron, como se não quisesse nada.

Tom olhou de rabo-de-olho, percebeu que a menina queria brincar.

-Também acho – e levantou do sofá – mas de mansinho, pois você sabe, Não vá aonde o sol não bate – Tom sussurrou, fazendo referencia a mãe.

 Não vá aonde o sol não bate!

E os dois saíram, começaram a andar silenciosamente, as sombras da noite começava a aparecer, e até que apareceu por fim.

-Acho que aqui já está bom, Cameron – Tom falou como se estivesse sussurrando. E estava.

Os dois desamarram a pipa. Tom pegou-a e levou longe de Cameron uns oito metros, e então pediu.

 -Corra, e levante vôo.

E ela fez, a pipa saiu das mãos de Tom, e começou a sobrevoar. Enquanto isso, atrás dele, alguma coisa grunhia.

-Parabéns! Esta mandando muito bem! – Elogiou Tom.

Tom! Aonde você está? venha cá preciso de sua ajuda!

Era a voz de Judite, a mãe de Tom e Cameron.

Tom rangeu os dentes.

-Vamos Cameron.

-Porque? – Perguntou a menina ainda correndo.

-A mãe me chamou.

-Chamou quem? – A menina pareceu não escutar, e então parou de correr.

-Chamou, eu – Tom respondeu.

-Chamou você, não eu!

Tom ficou pensativo, a menina estava certa.                

Não vá aonde o sol não bate!

-Vou ficar, depois eu entro!

Tom pensou novamente, seria uma boa ideia?

Não vá aonde o sol não bate! – Ele pensou.

-Tudo bem, mas não demora, se não estamos encrencados.

-Ta legal.

E Tom se aproximou de Cameron, beijou-lhe a testa da menina, e disse:

-Tome cuidado – e olhou nos olhos da garotinha.

-Eu tomo – Ela deu um sorriso – eu sempre tomo.

E Tom saiu, deu um aceno de mão para Cameron, que continuava a empinar a pipa.

Aquela foi a ultima vez em que Tom viu Cameron viva.

1

Alguma coisa grunhia na mata.

Alguma coisa que salivava ao ver Cameron, ali, sozinha brincando. O que fosse que estivesse desejando Cameron naquele momento, decidiu atacar. Coitada da garotinha, ela nem precisou pestanejar.

Ouve somente gritos abafados.

2

-Que barulho é esse? – Perguntou Judite assustada.

droga e droga, Cameron!

Judite viu da janela o corpo da filha estrebuchada no chão. Não aguentou, desmaiou.

Tom Collin, respirou fundo, não acreditava na cena que via. Correu para aonde estava a irmã. Seus olhos encheram de água. O garoto franziu o cenho, se ajoelhou, viu o pescoço da garotinha com uma mordida enorme, e arrancara boa parte.

Tom chorou, em silêncio. E naquele súbito momento, viu um vulto na mata. Levantou-se rapidamente, e disse:

-Venha! Mostre-se!

E alguma coisa lá na mata uivou. E o céu escureceu. 

3 

SOUTH CAROLINE – 2012

Tom Collin, despertou assustado.

Teve um pesadelo, aliás, o mesmo pesadelo que o atormenta desde que perdeu a irmã misteriosamente. Collin tinha mais de 38 anos de idade, e até hoje não entende o que houve em 1980 em Glent Hill. Mudou-se de lá uma semana depois, tentava enterrar os seus medos, se casou com uma brasileira chamada Joana Garneiro. São casados há mais de quinze anos. Nunca falou da sua vida que tinha em 1980, era um assunto em que ele tentava esquecer, bem, ele tentava, mas a imagem da irmã, toda ensanguentada, parecia insistir em atormenta-lo. A mãe Judite morreu de Cólera em 1999, desde então foi criado pela avó.

Collin, tentava levar a vida às custas, não era rico, e nem pobre, se esforçou nos estudos e é advogado. Joana insiste em ter um filho, mas ele sempre dizia, “não estou preparado, para desafios” – Tolice!

Pelo menos, quando ele estivesse na seca, teria uma boa desculpa para comer a própria mulher.

Escovou os dentes, beijou a mulher que ainda continuava deitada na cama, afinal ainda era 4h30 da madrugada. Desceu as escadas, aquela escada sempre lhe deu calafrios, inclusive aquele porão que fica ao lado da escada. Foi direto para a cozinha, se aproximou do rádio antigo da avó, e o ligou. Estava tocando fur elise.

Tom sentou-se na cadeira ao redor da mesa de platina. Apoiou a mão na cabeça, respirou fundo. Deu uma piscadela.

E então ele ouviu grunhido.

Aqueles terríveis grunhidos.

E ele olhou para trás, para os lados, para frente. E nada encontrou, quem grunhia? Levantou da cadeira, pegou uma faca de cozinha, deu alguns passos, estava chegando a sala de estar, e foi aí que sentiu algo gosmento e morno. Acendeu a luz.

E percebeu que tinha pisado em uma poça de sangue. Sua pupila dilatou, começava a soar frio, o sangue vinha da escada, e subiu até lá, e ainda o sangue escorria, e ficava com o tom mais avermelhado. Quando chegou ao quarto, o sangue escorria dos pulsos, e principalmente da enorme ferida que a sua esposa Joana tinha no pescoço. MEU DEUS! – Ele pensou. Mas foi ai que o seu medo quase o matou. Um vulto negro, um homem que estava vestindo uma capa com capuz apareceu atrás dele, a Coisa salivava sangue fresco. E Tom reagiu, percebeu que tinha a faca de cozinha mão e a meteu no baço no inimigo. Mas quem disse que adiantou? A coisa, retirou cuidadosamente o capuz e mostrou… mostrou aqueles terríveis dentes enormes, aqueles olhos avermelhados, e aquele terrível rosto ensanguentado.

A coisa grunhiu, e avançou em Tom.

Ele acordou. Só era um pesadelo.

Apenas um maldito pesadelo.

4

No mesmo dia mais tarde, Tom, Pensou:

Será que nem um cochilo eu posso dar? Sacanagem! Uma puta sacanagem!

-Querido, esse seu pesadelo daria uma boa estória para o Stephen King.

Ironizou Joana.

-Humm-mm, daria mesmo.

-Acho que você deveria ir a um psicólogo, não acha?

O tom de voz de Joana era doce, mas preocupante.

-Acha que estou ficando louco? – Perguntou Tom, olhando para Joana preocupado.

-Não, eu não acho.

-Porque tem tanta certeza?

Porque? Se você tem esses pesadelos há mais de vinte anos, porque ficaria louco agora?

Tom Collin, ficou á deriva.

-Tem razão, mas não vou a um psicólogo.

Joana largou as panquecas, e foi abraçar o marido.

-Deixa eu te contar uma história – ela se aproximou – o meu pai Davi, morreu muito cedo, você sabe. Mas ele sofria com algo, algo que se ele não desabafasse, não fosse a procura da verdade, isso o mataria mais rápido, muito. E foi ai que ele correu atrás daquilo que o perturbava, a minha mãe. A mulher que ele sempre amou, a mulher que ele abandonou – houve uma breve pausa e continuou – E ele correu atrás do prejuízo.

-O que quer dizer?

-Corra atrás do prejuízo, se algo aí dentro – apontou para o coração – estiver incomodando, se a sua antiga cidade Glen-sei-lá-do-que estiver, te prendendo a ela há muito tempo, vá lá novamente e tente se soltar, ou vai se sentir aprisionado a ela o resto da vida.

Joana e Tom se beijaram. Suavemente. E depois saborearam a panqueca.

Ou vai se sentir aprisionado a ela o resto da vida.

A noite foi longa, Tom não conseguiu dormir. 

5 

Todas as noites Cameron fazia questão de visitar Tom, tanto em sonhos, quanto em pesadelos terriveis e horrendos. Os pesadelos, sim, não se encaixaram na cabeça de Tom, Cameron, sua princezinha, porque teria pesadelos com a garota?

Glent Hill, poderia ser amaldiçoada, ou já estava amaldiçoada.

A frase que Joana disse a Tom na noite passada foi bem estudada, ficou em sua cabeça e não saia jamais, realmente a diretoria em seu cérebro estudava todos os declíneos, as consequências e causas que isso poderia ocorrer. Será que voltar para onde tudo aconteceu era uma boa ideia? Deveria Tom Collin voltar à pacata cidadezinha, e enfrentar a Coisa?

Deveria voltar?

E se foi um dia. O sol se pora, e o céu tomava tons carmersins, e um amarelo tornando-se laranja. Flashes viam na cabeça de Tom, o grito de Cameron, a Coisa que entrou no matagal e nunca mais foi vista, o corpo, aquele corpo de Cameron debruçado sobre a grama. Era muita coisa para se pensar, e tantas sem respostas.

Joana e Tom, os dois, juntos ao redor da mesa. Fatiando o enorme bife no prato. Joana o olhava de canto. Talvez esperasse alguma reação de Tom.

-Tudo bem, Tom?

A voz de Joana era monòtona, tranquila, mas apreensiva.

-Ok. Arrumaremos as malas, e … – ouve uma pausa – Zarparemos amanhã para Glent Hill.

E Tom largou o garfo com o bife espetado. Respirou fundo. Joana, deu um leve sorriso, e levou a carne a boca. E a engoliu.

Próximo sábado, no Clube do Medo…

Tom estacionou. E um homem enorme, e assustador saiu do carro. O enorme chapeu chamava a atenção a P220 pendurada na bainha também. O policial andava fazendo pose.

Grande coisa, ser policial.

-Boa Tarde…?

-Tom – hesitou – Collin. Tom Collin

-Sr Collin.

O homem enorme se apoiou no janela. A vos era grave e atormetadora.

-Identidade, por favor.

-Algum problema, Senhor Policial?