Medo da Verdade | Oitavo Caítulo

Medo da Verdade

 

50 ANOS DEPOIS…

RIO DE JANEIRO – 2012

INT. CASA DE REPOUSO – DIA

O dia amanhecia na Cidade Maravilhosa. Na Casa de Repouso Santa Clara era como se fosse um dia qualquer, uma vez que a rotina dos “hospedes” nunca mudava. A enfermeira encarregada da ala leste, ROSE, fora acordar ESTELA. Ela entrara no quarto da SRª. ROMANO.

ROSE:
Dona ESTELA, dona ESTELA. É hora de acordar.
ESTELA (MAL HUMORADA):
Eu já estou acordada.
ROSE:
Acordaste com mau humor?
ESTELA:
É impossível não acordar de mau humor morando nesse lugar, onde nada muda, tudo é a mesma coisa, todos os dias. Eu já estou cansada!
ROSE:
Mas hoje não será um dia como os outros para a senhora.
ESTELA:
O que vai haver? Um médico vai dar uma palestra? (IRÔNICA) Que interessante!
ROSE:
Não, não e não. Como pode esquecer? Hoje é…
ESTELA (CORTA):
Aniversário do meu filho Nicolas. Você acha que eu esqueceria que hoje é o aniversário do meu primeiro filho? 12 de dezembro de 1964, eu quase não cheguei viva ao hospital. Já lhe contei essa história?
ROSE:
Dezenas de vezes. Mas, então, já decidiu o que vai vestir hoje?
ESTELA:
Minha filha HELENA já decidiu por mim. Ela comprou um vestido azul brilhante e eu usarei uma das joias que meu falecido marido me deu.
ROSE:
A senhora fala dele com tanta indiferença.
ESTELA:
Já faz muito tempo, quase uma vida. Você tem quantos anos querida?
ROSE:
Trinta, senhora.
ESTELA:
E você considera isso muito tempo?
ROSE:
Bem… sim.
ESTELA:
Meu marido faleceu há trinta e três anos. Nick, coitado, só tinha quinze anos, estava terminando o curso normal. Helena, que era muito apegada ao pai, só tinha dez. Eu encontrei forças Deus sabe onde para continuar em pé e terminar a criação dos meus filhos e com o quê eles me retribuem? Me internando nesta casa de repouso! Eu mereço isso, Meu Deus?

CORTA PARA:


INT. CASA DE REPOUSO/REFEITÓRIO – DIA

ROSE levava ESTELA na cadeira de rodas para o refeitório. ESTELA resmungava a cada minuto.

ESTELA:
Eu já disse que não preciso dessa maldita cadeira de rodas. Eu tenho pernas e essas pernas são para andar.
ROSE:
Mas a senhora vai se cansar na festa de hoje.Vai dançar, rever os amigos… tem que guardar forças.
ESTELA:
Pensar que eu já corri tanto…
ROSE (OLHANDO EM VOLTA):
Em que mesa vai ficar?

Entre as diversas mesas encontravam-se grupos de idosos  conversando sobre o que liam no jornal, senhoras quase mudas que tomavam chá e uma com um homem rodeado de hospedes que o ouviam atentamente.

ESTELA (ANALISANDO TODAS AS MESAS):
Quem é aquele?
ROSE:
É o Maximiliam Pieport, um novo hóspede. Chegou ontem à tarde e já fez amizades.
ESTELA:
O que ele tem de tão interessante a contar que todas aquelas velhas estão o rodeando?
ROSE:
Ele foi um investigador, desvendou crimes…
ESTELA:
Com certeza foi um dos inúteis da década de cinquenta. Coloque-me na mesa dele, preciso divertir-me um pouco.
ROSE (RINDO):
Como quiser…

ROSE empurrou a cadeira até a mesa e, ao chegar, apresentou ESTELA ao grupo.

ROSE:
Sr. Pieport, essa é ESTELA uma das nossas hospedes mais adoráveis.

Maximiliam se velanta e beija a mão de ESTELA.

MAXIMILIAM:
Prazer, Max.
ESTELA:
Encantada, Maximiliam.
ROSE:
Posso deixá-la aqui, Dona ESTELA?
ESTELA:
Sim!

ESTELA levantou da cadeira de rodas com pouca dificuldade e acomodou-se em um dos assentos à frente do detetive. Um silêncio perturbador instalou-se na mesa.

ESTELA:
Por algum acaso falavam de mim?
MAXIMILIAM:
Não, de nenhuma forma.
ESTELA:
Então continue falando o que eu interropi.
MAXIMILIAM (PIGARREANDO):
Bem… como eu estava dizendo, nos meus primeiros anos como investigador eu só auxiliava os “grandes”, mas depois de alguns anos acabei me tornando um deles.
GERTRUDES:
E qual foi o crime mais difícil que teve de solucionar?
MAXIMILIAM:
Eu era um especialista em assassinatos… mas, de certa forma, havia um padrão para esse tipo de crime. Se um homem importante morria, sempre era uma pessoa invejosa na empresa.
ESTELA:
E o que me diz das “assassinas”?
MAXIMILIAM:
Ora, ESTELA, elas ainda não existiam na minha época. Na década de 60 tudo que uma mulher queria era ficar em casa cuidando dos filhos.
ESTELA:
Claro que isto não é verdade…
MAXIMILIAM:
Em todos os meus quarenta anos como investigador criminal não houve uma mulher que cruzasse o meu caminho.
ESTELA:
Ou você não cruzou o dela.
MAXIMILIAM:
Não queira iniciar uma discussão, senhora…
ESTELA (HISTÉRICA):
Você só pode ter sido um incompetente mesmo.
MAXIMILIAM:
Assim você me ofende.
ESTELA:
Quer saber, eu não preciso ficar aqui ouvindo suas fassanhas mirabolantes. Com licença.

ESTELA levantou-se com dificuldade e caminhou novamente para o seu quarto.

INT. CASA DE REPOUSO/QUARTO DE ESTELA – DIA

ESTELA entrou no quarto e, para sua surpresa, encontrou ROSE bisbilhotando nos seus pertences.

ESTELA:
Meu Deus, você é uma ladra!
ROSE:
Dona ESTELA, mas o que a senhora está fazendo aqui?
ESTELA:
Eu estava retornando por quê… Ora, isso não interessa. Você estava me roubando!(GRITANDO) Pega Ladrão! Socorro, Ladra.

Inesperadamente, ROSE segurou ESTELA pelo braço e tapou a boca dela com a sua mão.

CORTA PARA: